A senhora decente e o estranho no armazém
A vida de Helena era um arquivo bem-comportado de trinta anos. Trinta anos de casamento com Carlos, três filhos quase adultos, uma casa impecável no Alphaville e um vazio que latejava como um dente cariado no fundo da sua alma. Ela completara cinquenta primaveras, mas naquela noite, no salão de festas luxuoso onde seus pais celebravas suas bodas de ouro, ela se sentia como uma relíquia empoeirada numa prateleira.
O ar cheirava a flores caras e comida fina. Os convidados, todos da idade dos seus pais, dançavam valsas lentas e conversavam sobre netos e cirurgias de próstata. Carlos, ao seu lado, falava entusiasticamente com um primo sobre a mais recente turbina da BMW Série 7. Helena sorria, o sorriso plástico e perfeito que aprimorara ao longo de três décadas. Por dentro, morria um pouco mais.
Foi então que ela o viu. Um mesário, jovem, não devia ter mais de vinte e seis anos. Cabelos negros e rebeldes que escapavam do coque impecável, olhos escuros que pareciam ver tudo e não se impressionar com nada. Ele servia champanhe com uma elegância despretensiosa, seus movimentos eram fluidos, felinos. E quando seus dedos, longos e fortes, lhe entregaram uma taça, seus olhares se cruzaram por uma fração de segundo que durou uma eternidade. Um choque. Um clarão de calor percorreu seu corpo, concentrando-se num ponto baixo, numa fogueira que ela julgara extinta há séculos. Ele não sorriu, apenas manteve o olhar, pesado, intenso, como se lesse cada um dos seus pensamentos proibidos.
A noite seguiu, mas Helena estava à deriva. Seguia-o com os olhos, observando os músculos de suas costas tensionarem sob a camisa branca impecável, a forma como a calça preta moldava suas coxas fortes e, Deus a perdoe, a nítida protuberância que se delineava quando ele se virava de lado. Um calor úmido e familiar começou a encharcar sua calcinha de seda. Ela estava enlouquecendo. Aquilo era errado, doentio, perigoso. Era tudo que ela precisava.
Num momento de coragem — ou de pura loucura —, ela se levantou e foi até à zona de serviço, sob o pretexto de perguntar sobre o bolo. Ele estava sozinho, organizando pratos numa mesa auxiliar.
“O bolo…”, ela começou, a voz um fio de seda trêmula.
“Vai ser servido em vinte minutos, senhora”, disse ele, sem se virar. A voz era mais grave do que ela imaginara, uma vibração que lhe percorreu a espinha.
“Não é sobre o bolo”, ela sussurrou, o coração batendo tão forte que temia que todos ouvissem.
Ele parou e se virou lentamente. Seus olhos escanearam seu corpo, do decote discreto — que de repente lhe pareceu obsceno — até os saltos altos. A avaliação foi lenta, deliberada, como um comprador diante de uma peça rara.
“O que é, então?” Ele deu um passo à frente, invadindo seu espaço. Ela sentiu o cheiro dele: suor, sabão em barra e algo selvagem, primitivo.
Helena engoliu seco. Todas as regras, todos os deveres, trinta anos de conduta impecável desintegraram-se. “Preciso que me mostres onde fica a… despensa. Tenho de me recompor.”
Um sorriso quase imperceptível curvou seus lábios. Ele não disse uma palavra. Apenas pegou sua mão — a mão que usava a aliança de trinta anos — e puxou-a por um corredor escuro e silencioso, longe da música e das risadas. A única luz vinha de uma lâmpada fraca ao fundo. Ele abriu uma porta e puxou-a para dentro de um armazém escuro, frio, cheirando a limão e cera de chão. Prateleiras altas com suprimentos os cercavam como testemunhas mudas.
A porta fechou-se com um clique final. A escuridão era quase total.
Antes que ela pudesse proferir um som, seus lábios foram tomados pelos dele. Não foi um beijo de romance. Foi uma posse. Brutal, faminto, devorador. Sua língua invadiu sua boca com a autoridade de quem reivindica um território há muito desejado. Seus dentes morderam seu lábio inferior, e o leve sabor de sangue a fez gemer, não de dor, mas de pura, absoluta submissão a uma luxúria que nunca ousara experimentar.
Suas mãos, ásperas e impacientes, puxaram o vestido de chiffon caro, rasgando a renda sutil sem qualquer cerimônia. Os dedos dele encontraram seus seios ainda firmes, apertando-os com uma força que faria marcas roxas, marcas que ela desejou carregar para sempre. A boca dele abandonou seus lábios e desceu até seu mamilo, sugando-o através do tecido do sutiã com uma voracidade que a fez gritar baixinho, ofegante.
“Shhh”, ele ordenou, voz rouca contra sua pele. “Queres que te ouçam, puta casada?”
O palavrão, dito naquela escuridão, por aquela voz, foi o estímulo final. Ela arqueou as costas, oferecendo-se completamente.
Ele a virou de frente para uma prateleira de metal gelado, forçando-a a se inclinar para a frente. Suas mãos levantaram seu vestido até a cintura. Ela ouviu o ruído metálico de um zíper sendo aberto, e então a ponta do seu membro, imenso, duro como pedra e incandescente, pressionou a entrada do seu sexo, já inundado de desejo.
“Por favor”, ela suplicou, uma coisa que nunca fizera a ninguém.
Ele não a fez esperar. Enterrou-se nela num único movimento brutal, profundo, rasgando-a em dois. Ela gritou, o som abafado pelo braço que ele envolveu around sua boca. A dor era aguda, deliciosa, transformando-se rapidamente numa onda avassaladora de prazer. Ele a fodia com uma fúria animal, cada embate um castigo e uma benção, cada palavra sussurrada em seu ouvido uma profanação que a excitava além dos limites.
“É isto que a senhora decente queria? Ser arrebanhada num armazém por um empregado? Levar com pau de um estranho como uma puta qualquer?”
Ela não podia responder, apenas gemia, cada impacto contra a prateleira ecoando no silêncio do quarto. O mundo reduziu-se àquele espaço escuro, ao cheiro dele, à dor deliciosa, ao prazer proibido que a consumia. Ele puxou seu cabelo, arqueando suas costas para trás, mudando o ângulo e atingindo um ponto dentro dela que fez estrelas explodirem atrás de suas pálpebras fechadas. Seus orgasmos foram violentos, consecutivos, arrancando-lhe lágrimas e gritos mudos de êxtase puro.
Ele finalmente gemeu, um som gutural e profundo, e ela sentiu o jorro quente do seu climax preenchendo-a, marcando-a por dentro. Ele permaneceu dentro dela por um longo momento, ambos ofegantes, os corpos colados pelo suor.
Quando ele se afastou, a realidade começou a infiltrar-se novamente. O som distante da música, a frieza do metal contra sua pele. Ele a ajudou a se recompor, suas mãos agora surpreendentemente gentis. Sem trocarem uma palavra, ele saiu primeiro, deixando-a sozinha na semi-escuridão.
Helena arrumou o vestido rasgado, o corpo latejando, a alma em frangalhos e, paradoxalmente, mais viva do que jamais estivera em trinta anos. Olhou para a aliança no dedo. O metal estava frio. Ela sorriu, um sorriso de verdade, pela primeira vez numa era. A senhora decente tinha morrido naquele armazém. E a puta que sempre vivera nela finalmente respirara.
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