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Matar a curiosidade
Tenho 29 anos hoje, mas os fatos que vou narrar aconteceram quando eu tinha por volta dos 25. Sou moreno, de pele preta e constituição física atlética, bem cuidada pelo gosto por exercícios, mas sem exageros. Nunca me achei um homem fora do comum no quesito beleza, mas a vida acabou me dando um contraste interessante: olhos verdes marcantes e um sorriso fácil. Se somar a isso uma boa lábia e capacidade de escutar, o resultado sempre me abriu caminhos.
Naquela época, eu já havia saído da casa dos meus pais há alguns anos, mas passei por uma transição importante: consegui o emprego dos meus sonhos. O problema é que a remuneração inicial era menor do que o meu padrão anterior. Para me manter no orçamento sem abrir mão de um bom lugar, a solução foi dividir o apartamento com um colega.
Foi assim que o João entrou na história. Ele tinha cerca de 30 anos, o típico sujeito desligado do mundo, cujas maiores prioridades eram jogar videogame, fumar maconha e levar a vida no menor ritmo possível. Mesmo vindo de uma família de posses, ele trabalhava no turno da noite em um estacionamento e parecia plenamente satisfeito em apenas comer, beber, jogar e passar o tempo com a namorada. Ele não tinha muitas ambições, mas era um cara tranquilo.
O ponto de instabilidade atendia pelo nome de Regina. Ela também tinha por volta dos 30 anos e namorava o João há quase quatro. Ela tinha uma presença impossível de ignorar, marcada pela estética clássica e exuberante de uma mulher de traços italianos. A pele era extremamente clara, de um tom quase de porcelana, criando um contraste vívido com os cabelos intensamente negros e levemente ondulados que desciam até o meio das costas. O rosto tinha feições bem desenhadas, lábios carnosos e um olhar expressivo, quase provocativo por natureza. O corpo tinha curvas extremamente pronunciadas: ombros estreitos que abriam para seios volumosos e firmes, uma cintura bem marcada que contrastava com os quadris largos, as coxas grossas e o bumbum grande e bem desenhado. Era uma mulher visceralmente atraente e consciente do próprio apelo.
Porém, a personalidade era tão intensa quanto o tipo físico. Pavorosa no temperamento, brigava com o João o tempo todo — gritava por qualquer motivo, fechava a cara e, não raras vezes, a discussão escalava a ponto de saírem no tapa. A convivência com ela no apartamento era uma constante linha de tensão.
Com o tempo e com as vindas frequentes dela nos fins de semana, a proximidade fez com que ela passasse a se aproximar de mim para desabafar. Era visível o desgaste de uma mulher vaidosa, em pleno ápice da sua sensualidade, lidando com a frustração e a apatia do parceiro. Reclamava da passividade dele, da maturidade de um garoto e do quanto aquela resignação a desgastava como mulher.
Eu sempre fui do meio do swing e sempre tive atração pelo fetiche de me relacionar com mulheres casadas ou comprometidas — mas sempre dentro de um contexto consensual e fetichista, onde o parceiro sabia ou fazia parte. Nunca havia olhado para a Regina sob essa ótica. Honestamente, embora a achasse uma mulher atraente de corpo, eu a considerava bastante difícil e incômoda no dia a dia. Por cortesia de convivência, ouvia os desabafos, dava conselhos neutros e encerrava o assunto.
Contudo, os desabafos foram mudando de tom. Com o passar dos meses, Regina passou a expor a intimidade do casal sem filtros. Contou que não transavam há meses, que ele enfrentava problemas de ereção, que não a elogiava mais e que ela se sentia completamente frustrada e sem apelo sexual na própria relação.
Foi nessa época que comecei a notar uma mudança no comportamento dela em relação a mim. Ela passou a me reparar de forma diferente: quando eu saía do banho, ou quando andava pela casa usando apenas bermudas curtas de academia — um hábito meu por conforto, costumando dispensar a roupa íntima em casa. O jeito como ela olhava para o contorno do meu corpo deixava transparecer algo ardente e guardado.
O estopim aconteceu num dia aparentemente comum. Eu tinha acabado de sair do banho e estava no meu quarto quando Regina apareceu na porta. O João estava no outro quarto, a poucos metros dali.
Ela me olhou de cima a baixo e perguntou, com um tom meio provocativo, por que eu gostava tanto de andar quase sem roupa pela casa. Entrei na brincadeira e respondi que era a minha tentativa de seduzir o João. Ela deu uma risada curta, me encarou fixamente e soltou: — Você acertou o ninho, mas errou o passarinho…
Em seguida, completou dizendo que reparou que eu não usava cueca e que achava isso um pouco desrespeitoso. Eu devolvi a provocação no ato: perguntei por que ela andava reparando exatamente nessa parte. Ela apenas respondeu que o volume no calção deixava tudo muito evidente. Com um sorriso de canto, afirmei simplesmente que era porque o volume realmente era grande.
A conversa ficou suspensa no ar por um segundo, mas Regina ouviu um barulho no corredor e voltou rapidamente para o quarto onde o João estava.
Passaram-se apenas alguns minutos e o meu celular acendeu na cabeceira. Era uma mensagem dela.
Ao abrir, vi uma notificação no WhatsApp indicando que ela continuava digitando. Aguardei alguns segundos até chegar a frase:
“Fiquei curiosa. Quantos centímetros tem?”
Naquele momento, a provocação se tornou explícita. Sem pensar nas implicações, respondi curto: “Só quem já viu ao vivo tem essa informação.”
A notificação de que ela estava digitando apareceu e sumiu algumas vezes, sem nenhuma mensagem nova por um tempo. Até que a tela acendeu de novo:
“Acho que vou aí matar a curiosidade.”
Uma tempestade de pensamentos cruzou a minha mente. O João estava no quarto ao lado, a pouca distância da minha porta. Ele tinha suas falhas, mas era meu colega de apartamento e não merecia aquela situação. Mas a reação do meu corpo já era incontrolável, o desejo falou mais alto e a prudência foi deixada de lado.
Digitei apenas uma palavra:
“Vem.”
Segundos depois, ouvi o ruído sutil da maçaneta da minha porta girando.


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