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Outubro 28, 2026

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Outubro 28, 2026

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A putinha do RH

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Minha camisa estava encharcada de suor.

Durante os quinze minutos em que ela me deixou esperando, repassei as escolhas que tinham me levado até aquela sala.

Eu acreditava que bastava seguir a cartilha: fazer uma boa faculdade, escolher uma profissão valorizada e investir na minha formação. Se fizesse tudo certo, teria uma carreira de sucesso.

Estava errado. Enquanto eu me desdobrava para resolver problemas que se multiplicavam como a Hidra de Lerna, havia gente na empresa que parecia ter sido escolhida.

Se você não faz ideia de quem estou falando, a chance de ser uma dessas pessoas é altíssima.

Cargos em inglês, um puta salário e o dia inteiro em reuniões inúteis, sem nunca precisar fazer nada. Pesadelos ambulantes cuja existência é a prova viva de que Karl Marx estava certo.

Talvez, se eu me comportar direito nessa vida, na próxima eu nasça como um deles. Quem sabe até vire um “people specialist”. Por aqui, porém, o cargo já tinha dona.

Letícia Carrasco.

A sacerdotisa da cultura organizacional, guardiã do bem-estar corporativo. Uma profissional dedicada a cultivar ambientes seguros e a garantir que cada colaborador encontrasse propósito em sua trajetória na empresa.

Sim, eu sei que isso é só fantasia. A maioria dos funcionários só a encontrava duas vezes: na contratação e, meses ou anos depois, numa reunião em que ela aparecia sem aviso para comunicar a demissão.

A ironia do sobrenome não passava despercebida a ninguém, até porque, Letícia Carrasco era uma tremenda filha da puta.

Eu trabalhava anos nessa empresa e nunca tinha falado com a pessoa supostamente encarregada de tornar minha jornada profissional mágica e incrível.

Ainda assim, conhecia todas as histórias que corriam sobre ela.

Sádica.

Adorava dar más notícias e usar do cargo para amassar os outros.

Embora fosse incapaz de compreender o trabalho dos engenheiros e programadores do nosso setor, Letícia tinha, por algum motivo, influência demais nas discussões sobre promoções e demissões. A liderança a usava para manter a ralé como eu sob controle.

Era uma espécie de Cérbero corporativo. Em vez de guardar a entrada do submundo, barrava qualquer funcionário que se aproximasse de um bônus ou de uma promoção.

Por isso, eu suava sem parar naquela manhã. Tinha quase quinze anos de experiência no mercado de trabalho e estava com medo de uma meninha que talvez nem tivesse completado trinta anos.

Esperava o pior, mas não imaginava o quanto aquela reunião seria humilhante.

Letícia entrou quinze minutos atrasada e nem se deu ao trabalho de pedir desculpas. Talvez achasse que me conceder aquela conversa já era um grande favor.

Usava um terninho preto, com calça de risca de giz. Devia custar uma fortuna, mas, mesmo antes de abrir a boca, já parecia dona da sala.

E, por mais que eu odiasse tudo o que ela era e representava, não tinha como negar: era uma puta de uma gostosa.

Ela era pequena, de pele morena, cabelos pretos sempre presos num rabo de cavalo e um corpo que não tinha nada de exagerado, mas tudo parecia milimetricamente perfeito. Como se algum comitê de excelência operacional a tivesse revisado e aprovado.

Letícia se sentou na cadeira mais afastada da minha e colocou o celular sobre a mesa. A cara de bunda não me surpreendeu. Era sua marca registrada. Acho que, em todos aqueles anos na mesma empresa, nunca tinha visto seus dentes.

Gaguejei no começo. Agradeci pelo tempo dela e falei da importância daquela abertura com o RH.

Então abri os slides. Havia passado dias tentando transformar anos de trabalho em evidências objetivas de que merecia uma promoção.

Comecei pela experiência. Entre os analistas no meu cargo, eu era o que tinha mais anos de mercado. A empresa acabara de contratar uma moça para a mesma posição que a minha, e ela tinha se formado havia menos de dois anos.

Mostrei em que tinha trabalhado e os resultados que entreguei. Os projetos que os outros analistas não conseguiam concluir acabavam na minha mesa.

Por fim, menti.

Disse que adorava trabalhar ali, que acreditava no time e queria continuar contribuindo para o crescimento da empresa. Mas, se minha situação financeira não melhorasse, talvez precisasse procurar outras oportunidades no mercado.

Terminei meus argumentos. Antes de dizer qualquer coisa, Letícia respondeu a uma mensagem no celular que vibrava sem parar sobre a mesa. Só então olhou para o último slide e, por fim, para mim.

Perdão pelo clichê, mas aqueles segundos de silêncio pareceram a porra de uma eternidade. Talvez eu já estivesse alucinando, mas vi um sorriso no canto da boca dela antes de ela começar a me destruir.

— Eu gosto de ser muito transparente nessas conversas, embora saiba que algumas coisas que vou dizer talvez não sejam exatamente o que você gostaria de ouvir.

Fez uma pausa. Talvez quisesse me dar tempo de me preparar para a sinceridade que vinha aí.

— Se existem pessoas com menos experiência que você ocupando o mesmo cargo, é porque a empresa entende que elas têm mais potencial.

Fiquei olhando para ela, tentando entender como tinha conseguido transformar minha experiência em um atestado de fracasso com tanta elegância.

Ela continuou:

— Acho importante que você reflita sobre o que realmente está buscando para a sua carreira. Se sente que suas expectativas de crescimento não estão alinhadas com as oportunidades que temos aqui, talvez faça sentido considerar outras possibilidades no mercado. O mais importante é que esteja em um lugar onde possa continuar se desenvolvendo e se sentindo realizado profissionalmente.

Fiquei imóvel, sem saber o que responder.

Entrei naquela sala como um profissional experiente e competente.

Agora me sentia uma barata.

Letícia não esperou que eu reagisse. Levantou-se, recolheu suas coisas e foi embora. Não lembro dela se despedir.

Voltei para minha mesa, abri o computador, respondi às mensagens e comecei a resolver os problemas que tinham se acumulado enquanto eu tentava salvar minha carreira.

Afinal, as entregas não iam esperar minha vontade de chorar passar.

Letícia provavelmente já tinha esquecido a reunião antes mesmo de chegar ao elevador. Para ela, eu era só mais um funcionário insatisfeito, fácil de substituir.

Mas, de todas as pessoas em quem Letícia havia pisado ao longo da carreira, duvido que imaginasse que justo eu teria a chance de revidar.

A vida continuou depois daquela reunião.

Nas semanas seguintes, trabalhei mais do que antes.

A promoção nem passava pela minha cabeça. Queria evitar que alguém chegasse à conclusão de que eu não valia nem o cargo que tinha atualmente.

Se não me viam como alguém com potencial, talvez pelo menos me vissem como alguém que não valia o esforço de substituir.

O plano era continuar trabalhando feito um camelo por um salário que mal pagava as contas. Talvez um dia conseguisse me aposentar sem dinheiro.

Não era um bom plano, mas era o único que eu achava possível.

Só não sabia que minha vida estava prestes a mudar, graças a uma série de coincidências incríveis.

A primeira delas era o banheiro do escritório.

O banheiro foi interditado por um problema hidráulico. Disseram que o conserto levaria algumas horas. Aquela empresa tão maravilhosa e cheia de gente competente levou semanas.

Assim, ficamos apenas com os mictórios durante esse período. Quem precisava sentar no vaso tinha que procurar em outro lugar.

Para mim, não era um detalhe. O estresse tinha bagunçado meu intestino. Às vezes, a urgência vinha sem aviso e me dava poucos minutos para achar um vaso.

Foi assim que comecei a usar o banheiro do estacionamento.

Ficava num canto tão escondido que eu podia contar nos dedos quem sabia da existência dele.

Eu só conhecia o lugar por causa do Cleyton, o porteiro. Sempre que descia para fumar, ele colava em mim para pedir um cigarro e puxava assunto sobre os jogos do Corinthians.

Quem diria que minha amizade com Cleyton seria a chave para mudança radical na minha vida.

Se houvesse um campeonato de banheiros deploráveis, aquele levava o caneco. Eram duas casinhas de concreto cinza espremidas entre o bicicletário e um depósito de vassouras. No masculino, um sujeito alto mal conseguia sentar no vaso sem bater os joelhos na porta.

O arquiteto daquela porra devia ser um gênio. A única janela ficava acima do vaso e dava direto para o banheiro feminino.

Não que fizesse muita diferença…

Que mulher entraria naquela espelunca por vontade própria?

Naquele dia, eu descobri.

Estava tranquilamente fazendo minhas atividades pós-feijoada.

Quando ouvi a porta do banheiro feminino se abrir.

Por um instante, pensei em alguém da portaria, algum funcionário que não ligasse para o bonequinho com vestido na placa da porta.

Mas não tinha entrado apenas uma pessoa naquela pocilga. Eram duas.

— Tá, aqui ninguém vai ouvir a gente. O que você queria conversar comigo? — perguntou uma voz feminina.

Eu conhecia aquela voz. Ou pelo menos tinha a sensação incômoda de já ter ouvido alguma vez. Só não conseguia encaixá-la em um rosto.

Do outro lado da parede, ninguém respondeu.

Em vez disso, ouvi o estalo de um beijo. Depois outro. E mais um, entre passos desajeitados.

— Ei, calma… Eu achei que a gente ia conversar.

— Eu tô com um tesão absurdo desde que te vi com essa sainha hoje. A gente resolve isso primeiro. Depois converso sobre o que você quiser.

Fiquei imóvel sobre o vaso, incapaz de acreditar na situação absurda que eu estava vivendo.

— Mas assim? Eu não posso largar meu trabalho toda vez que você resolve me chamar.

O homem riu, como se ela tivesse feito uma piada.

— Eu sou sua prioridade máxima. O resto do que você faz nessa empresa pouco importa.

Aquela frase era estranha.

Não o conteúdo em si, mas a segurança com que foi dita.

O cara com certeza deveria ser alguém pica na empresa, acostumado a ser obedecido.

Os beijos recomeçaram.

A mulher voltou a falar, dessa vez com menos convicção.

— Eu não sei… Às vezes me sinto culpada. Fico pensando na sua família, na sua esposa.

Puta que pariu.

A fofoca tinha acabado de subir vários degraus na minha escala.

O cara era casado. Ela parecia envolvida com ele havia algum tempo. E, considerando a conversa sobre prioridades e trabalho, alguma coisa me dizia que aquela relação não era exatamente um romance entre dois colegas que se apaixonaram na máquina de café.

Pensei em subir no vaso para espiar pela janela, mas mal conseguia me mexer sem bater os joelhos na porta. Se tentasse, provavelmente acabaria no chão, com uma concussão e a pior história de acidente de trabalho da empresa.

— Quer ligar pra ela? Eu adoraria que ela ouvisse o marido comendo a putinha do RH.

Meu coração parou.

Eu conhecia aquela voz.

Era o diretor da minha área.

Era um cara que sempre estava com um terno impecável, cercado de executivos, que vinham da Ásia só para falar com ele.

E a mulher?

Só podia ser a minha arquinimiga.

Letícia Carrasco.

Não era a fofoca do ano.

Era a fofoca do século.

— Ai, como você é porco — ela respondeu.

Quase não reconheci a voz.

Nas reuniões, Letícia parecia capaz de demitir alguém só de erguer uma sobrancelha. Ali, falava num tom agudo e manhoso que eu jamais esperaria dela.

Parecia uma adolescente.

— Oinc, oinc. Tá na hora de você mamar esse porquinho, então.

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