Por
Assumindo erros
Quando a Ana decidiu falar, eu senti que vinha coisa pesada.
Ela estava inquieta, mexendo nos dedos, como quem segura um segredo grande demais.
— Eu quase te traí de verdade, ela disse, sem rodeios.
Meu corpo congelou.
E mesmo assim eu queria ouvir cada detalhe.
— Quase? — perguntei, mas minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
Ana respirou fundo, como se estivesse prestes a abrir uma porta que deveria permanecer fechada.
— Eu conversava com caras… mas não era só conversa.
Ela olhou pro chão, envergonhada.
— Eu deixava eles me flertarem. Eu respondia. Eu recebia fotos, sabe? Daquele tipo que você imagina.
Meu estômago virou. Mas uma parte de mim — a parte que odeia mentira — queria tudo, exatamente como foi.
— E você… fazia o quê com isso?
Ela fechou os olhos, como se estivesse revivendo.
— Eu gostava. Me dava aquele calor… aquela sensação proibida. Eu sabia que era errado, mas eu deixava rolar.
Minha respiração ficou pesada.
Eu queria parar ela.
Mas queria ouvir mais.
Muito mais.
— Teve um cara, ela continuou.
A voz firmou, como quem finalmente aceita contar.
— Eu marquei de sair com ele. Cinema. Depois cerveja. Eu queria ver até onde ia permitir.
Senti o corpo inteiro tensionar.
— E aí? — perguntei.
Helena passou a mão na nuca.
Os olhos dela brilhavam com uma mistura de culpa e memória.
— A gente ficou no cinema… mas não prestávamos atenção em nada. Ele ficava olhando pra mim o tempo todo. Como se estivesse me despindo ali, na sala escura.
Meu peito apertou.
Mas não consegui impedir o impulso de pedir:
— E depois?
Ela engoliu seco.
— Depois da cerveja, ele encostou em mim. Primeiro no braço… depois na cintura. Eu deixei.
As palavras saíram como um sopro quente.
— Não sei explicar. Era atenção. Era desejo. Era alguém me tocando como se estivesse esperando por aquilo há semanas.
Senti algo dentro de mim ferver.
Raiva, dor… e um tipo de excitação proibida que eu não queria admitir.
— Ele tentou te beijar?
Helena hesitou — mas respondeu:
— Tentou. Chegou perto. Eu senti a respiração dele no meu rosto, a mão deslizando pela minha cintura, puxando devagar…
Ela fechou os olhos, recordando.
— E eu quase deixei. Quase mesmo. Só não aconteceu porque eu virei o rosto na última hora.
Meu coração batia forte demais para ficar quieto.
— Você teria feito?
Ela não negou.
— Eu estava pronta pra isso. Se ele tivesse insistido mais um pouco… teria acontecido. Eu estava quente, carente, querendo sentir alguma coisa. Por isso eu digo: foi traição. Não foi beijo, não foi sexo… mas eu fui até o limite.
O silêncio que veio depois quase me esmagou.
E o pior?
Enquanto ela falava, descrevendo cada gesto, cada aproximação, cada toque que quase virou algo maior…
meu corpo reagia.
Não porque eu gostasse do que ouvi.
Mas porque havia algo intenso, sujo, proibido, inconfessável naquela história.
E eu sabia que jamais esqueceria o jeito que ela disse:
— Eu quase deixei outro homem me ter. E eu senti vontade.


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