Por
Reportar este conto
Eu assisti escondido as sessões da minha esposa com o aluno mais indisciplinado da escola
Tinha acabado de me matricular na academia. Na primeira semana, tentava reproduzir um exercício seguindo as instruções de um vídeo da internet. Em algum momento, ouvi uma risada atrás de mim.
— Desculpa, mas você vai acabar quebrando a coluna desse jeito.
O que aconteceu depois eu conheço sobretudo pela versão dela, que Camila adora contar a qualquer um disposto a ouvir.
Uma loirinha de body rosa veio me ajudar, e meu cérebro entrou em pane.
Fiquei vermelho e tenso, enquanto ela corrigia o exercício.
Camila diz hoje que achou aquilo “fofo”.
Depois dessa interação vergonhosa, passamos a nos cumprimentar sempre que nos encontrávamos na academia.
As conversas eram rápidas, entre um treino e outro, mas bastaram para eu criar coragem de adicioná-la no Instagram.
E para minha surpresa, ela me seguiu de volta.
Fiquei animado, mesmo sabendo que aquilo não era um sinal forte o suficiente para eu tentar algo. Nunca tinha passado na minha cabeça que uma mulher como Camila poderia se interessar por mim.
Mais por tédio do que por estratégia, comecei a curtir e responder a todos os stories dela. Não me orgulho, mas eu fazia parte do “gado” da minha futura esposa.
Camila sempre respondia alguma coisa. Às vezes, um emoji. Às vezes, uma frase curta.
Nunca puxava assunto nem abria espaço para uma conversa de verdade. Ainda assim, saber que lia o que eu mandava já era o bastante para me deixar esperando o próximo story.
Um dia, ela postou que estava com fome e não queria gastar seu dinheirinho com delivery. Pedi o endereço e mandei entregar um hambúrguer com um brigadeirinho.
Quando o pedido chegou, Camila me agradeceu por áudio, rindo. Fiquei todo bobo. Mas aquele ainda não era o começo de verdade da nossa história.
Outro dia, ela postou um story dizendo que todos os homens eram canalhas. Eu já tinha o endereço e paguei uma pequena fortuna para mandar um buquê de rosas à casa dela.
Ela publicou uma foto das flores no feed, com uma carinha de olhos de coração.
Depois disso vieram mais mensagens, encontros, presentinhos e gestos românticos exagerados.
Seis anos depois, estamos casados — e Helena, nossa filha, acabou de nascer.
Eu trabalho com tecnologia. Sou PJ e presto serviços de infraestrutura e segurança para empresas.
Camila é psicóloga numa escola pública daqui da região. Acompanha alunos com dificuldades, inclusive os que são considerados os casos mais difíceis.
E, sendo bem sincero, nunca gostei muito do trabalho dela.
Na escola onde ela trabalha, já houve alunos agredindo professores e até um caso em que um estudante ameaçou outro com uma faca. E era justamente com os piores alunos que minha esposa trabalhava.
Durante a gravidez, cheguei a sugerir que ela largasse o emprego para se dedicar à casa e à Helena.
Camila se ofendeu. Ser psicóloga não era apenas o que fazia, era quem ela era.
Não toquei mais no assunto.
Também não tinha por quê.
Nossa vida parecia perfeita.
Ou, era o que eu pensava.
Numa noite qualquer, jantávamos na cozinha. Helena já tinha dormido e, pela primeira vez no dia, a casa estava silenciosa.
Mas, o celular de Camila não parava de apitar.
— Quem está te mandando tanta mensagem assim? — perguntei.
— Ah, é só chatice do trabalho…
Naquela hora da noite?
E com tantas mensagens?
Claro que desconfiei.
Continuei jantando como se nada tivesse acontecido. Não iria começar uma discussão à mesa nem passar pelo papelão de pedir que ela me mostrasse o celular.
Eu tinha outro jeito de descobrir.
Alguns anos antes de Helena nascer, Camila e eu passamos por uma crise séria. Um professor novo chegou à escola, e eu achava que estava dando em cima dela.
Ficamos semanas em guerra. Brigávamos o tempo inteiro.
Então tomei uma decisão que muita gente vai condenar. Instalei um software espião no celular da minha esposa.
Foi assim que descobri que Camila e o professor só trocavam mensagens de trabalho.
Era errado? Claro que era.
Mas a paz voltou para casa.
Talvez um homem melhor que eu, depois que a confiança estivesse renovada, tivesse desinstalado o aplicativo.
Só que, como Camila era muito desejada, eu sabia que meu ciúme sempre iria voltar.
Em vez de discutir toda vez que isso acontecia, eu simplesmente abria as mensagens dela. Via que tudo não passava de coisa da minha cabeça e me acalmava.
Eu chamava aquilo de garantia.
Um backup da relação.
Fazia muito tempo, inclusive, que nem abria o aplicativo.
Mas, naquela noite, depois do jantar, fui para o escritório, abri meu laptop e fui ler o WhatsApp da minha esposa.
Olharia por alguns segundos, afastaria a desconfiança e voltaria à vida normal.
As mensagens que chegaram durante o jantar eram de Adriana, uma professora auxiliar.
Entre os colegas da escola, era de quem Camila tinha mais intimidade.
Senti um alívio imediato.
Era mesmo conversa de trabalho.
Ainda assim, já que estava ali, continuei lendo.
Adriana:
⠀⠀amiga, td bem?
⠀⠀vi que mudaram o ryan do carlos para você.
⠀⠀to preocupada
Camila:
⠀⠀então… hoje foi a primeira sessão com ele, tava super preocupada
⠀⠀o Carlos me deixou apavorada
⠀⠀deixei até o 190 discado no celular por precaução kkk 😅
Adriana:
⠀⠀meu deus
⠀⠀e aí??? 👀
Camila:
⠀⠀e aí… nada
⠀⠀o Ryan foi super bonzinho
⠀⠀meio quietinho, mas normal pra primeira sessão né
Adriana:
⠀⠀jura??
⠀⠀todo mundo fala que ele é o capeta kkk
⠀⠀os professores tão fazendo de tudo pra ele passar de ano só pra tirar ele da escola
Camila:
⠀⠀então… falei pouco com ele até agora
⠀⠀dá pra ver que vive uma realidade bem complicada
⠀⠀mas parece disposto, sabe?
⠀⠀o Carlos é velha-guarda demais…
⠀⠀quer aplicar psicanálise numa criança 😑
Adriana:
⠀⠀nem dá pra culpar o mlk por ameaçar ele de morte, né?
⠀⠀o Carlos é chato pra caralho 🤣
Camila:
⠀⠀nem me fale kkk
Até ali, as mensagens não tinham nada demais. Trabalho e um pouco de fofoca.
Eu já ia fechar o notebook quando uma nova mensagem apareceu.
Camila:
⠀⠀posso te contar um segredo, amiga?
Adriana:
⠀⠀claro que pode
Camila:
⠀⠀mas promete que não conta pra ninguém…
⠀⠀eu posso rodar se alguém descobrir
⠀⠀não devia falar sobre a sessão
Adriana:
⠀⠀se alguém pegar nossas mensagens, as duas tão ferradas 😂
Camila:
⠀⠀vc lembra como eu fui pra escola hoje?
Adriana:
⠀⠀sim… calça jeans e aquela blusinha branca
⠀⠀pq???
Camila:
⠀⠀então… nada demais, né?
⠀⠀eu tava explicando um exercício pra ele
⠀⠀aí fui escrever na lousa
Adriana:
⠀⠀ah não, amiga!!!
⠀⠀já imagino onde isso vai dar
⠀⠀ele falou alguma coisa?
Camila:
⠀⠀não fez nada
⠀⠀só que tava de shorts
⠀⠀e deu pra notar, sabe? 🙊
Adriana:
⠀⠀MEU DEUS AMIGA
⠀⠀EU NÃO ACREDITO
⠀⠀VC FEZ O QUÊ??
Camila:
⠀⠀nada né, continuei a explicação
⠀⠀fingi que nem notei
Adriana:
⠀⠀KKKKKKKK
⠀⠀TÁ EXPLICADO PQ ELE TÁ TÃO BONZINHO COM VC!
Camila:
⠀⠀como você é idiota kkkk
⠀⠀ele foi respeitoso, essas coisas não dá pra controlar
Adriana:
⠀⠀é, não dá pra culpar o mlk…
⠀⠀ele na flor da idade, dezoito aninhos recém completados
⠀⠀você vai e esfrega esse rabão gostoso na cara dele
Camila:
⠀⠀PARA COM ISSO DRI!!!
⠀⠀juro to com muita vergonha
⠀⠀🙈🙈🙈
Adriana:
⠀⠀só me diz uma coisa
Camila:
⠀⠀o que?
Adriana:
⠀⠀ele é roludo??? 😂
Camila:
⠀⠀ai, pq eu ainda falo com vc?
⠀⠀KKKKKK palhaça 🤡
A conversa acabou ali.
Fiquei com uma sensação amarga. Camila tinha acabado de discutir a ereção de um aluno com uma colega de trabalho. Não parecia coisa dela.
Mas, naquela hora, tratei aquilo como fofoca. Uma situação absurda que ela quis dividir com Adriana para rir depois. Não havia motivo para transformar aquilo num problema.
Além disso, gente interessada na minha esposa nunca faltou. Não seria um aluno de dezoito anos, com problemas na escola, que tiraria meu sono.
Pelo menos era nisso que eu queria acreditar.


Deixe um comentário
Tem de iniciar a sessão para publicar um comentário.