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Uma Situação Hipotética
Quando Rafael entrou na empresa, cabiam todos os funcionários em uma única mesa de reunião. Ele viu as primeiras contratações, ajudou a montar processos que ainda não tinham nome e passou madrugadas ajustando planilhas que ninguém além dele entendia direito. Sabia qual fornecedor atrasaria antes mesmo do e-mail chegar. Sabia qual meta era ousada e qual era só discurso.
Na quinta-feira em que a CEO anunciou a nova diretora, o aviso foi curto e direto: alguém de fora assumiria a área.
No café, um colega encostou no balcão ao lado dele.
— Então agora você tem chefe?
Rafael mexeu o açúcar na xícara sem olhar para cima.
— Sempre tive. Só mudou a cadeira.
Na segunda-feira seguinte, Laura já estava na sala de vidro antes das oito. Notebook aberto, blazer pendurado na cadeira, uma garrafa de água ao lado. Quando o time entrou, ela fechou a tela devagar.
— Quero entender como vocês fazem as coisas funcionarem — disse, apoiando as mãos na mesa. — Depois a gente fala de mudança.
Rafael, no fundo da sala, cruzou os braços. Não era o discurso que ele esperava.
Nos dias seguintes, Laura chamou um por um para conversas individuais. Quando chegou a vez dele, a porta de vidro se fechou com um clique seco.
Ela não abriu com gráficos nem metas.
— O que aqui dá certo e ninguém percebe?
Rafael puxou a cadeira, inclinou o corpo para frente e começou. Falou dos relatórios que dependiam de duas pessoas específicas. Das decisões técnicas que escondiam acordos políticos. De um gargalo antigo que sempre voltava com outro nome. Quando percebeu, Laura já tinha virado três páginas do caderno.
Ela ergueu os olhos.
— Se eu mexer nisso sem você, eu quebro.
Rafael ficou em silêncio.
Ela fechou o caderno.
— Vamos fazer isso dar certo — Ela falou convicta.
Ele assentiu uma vez. Saiu da sala mais devagar do que entrou.
As reuniões mudaram de ritmo. Laura apontava para o futuro com prazos e números claros; Rafael ajustava o caminho, desviando dos buracos que só ele conhecia. Quando um gerente tentava empurrar um problema, ela inclinava a cabeça na direção de Rafael.
— Confere?
Ele respondia com poucas palavras. Bastava.
Com o tempo, ele passou a bater na porta dela sem agendar quando algo saía do previsto. Laura girava a cadeira, ouvia, fazia duas ou três perguntas e decidia.
— E você? — ela perguntava às vezes, apoiando o queixo na mão. — Faria diferente?
— Eu faria com menos coragem.
Ela sorria de lado.
— Por isso estamos aqui os dois.
Os relatórios começaram a fechar acima da meta. A CEO comentou em uma reunião maior:
— Foi uma boa combinação.
Laura agradeceu. Rafael olhou para a tela.
Vieram as viagens. Salas de reunião em outras cidades, jantares longos com clientes que falavam demais. No fim de uma dessas noites, já no saguão do hotel, ficaram alguns segundos parados depois do elevador fechar.
— Você recusou uma proposta no ano passado — Laura disse, ajeitando a alça da bolsa no ombro. — Por quê?
— Porque aqui ainda dava para crescer.
Ela sustentou o olhar dele um instante além do necessário.
— Eu larguei a estabilidade para vir.
O elevador chegou. Entraram. O espelho devolveu a imagem dos dois lado a lado, próximos demais para ser casual.
Nada avançava. Tampouco recuava.
Na sexta-feira do melhor trimestre da história da empresa, o escritório tinha música baixa e copos plásticos espalhados sobre as mesas. Laura segurava a segunda taça de vinho do outro lado, próximo a saída, Rafael conversava com alguns colegas sobre viagens e casa.
Instantes depois os dois se esbarraram ao pegar comida na mesa central.
— Ué… repetindo? — ele sorriu.
— Sexta de recorde. Pode.
— Achei que você era disciplinada até no happy hour.
— Sou. Mas hoje eu tô comemorando de verdade.
Ele ergueu o copo como se brindasse outra vez, mas não disse nada. Laura sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário antes de voltar a atenção ao prato.
Alguém chamou Rafael do outro lado da mesa. Ele respondeu com um gesto rápido, desviando-se por instantes. Laura aproveitou para se afastar também, circulando entre as mesas, distribuindo sorrisos breves, comentários profissionais demais para o clima da noite.
A música pareceu diminuir sem que percebessem exatamente quando. Copos vazios começaram a se acumular perto do lixo. Alguém comentou que já estava tarde.
Foi então que as pessoas começaram a ir embora.
— Você vai para o estacionamento?
Rafael assentiu com a cabeça virando o último gole de vinho e seguiu Laura até a saída.
Desceram juntos pelo elevador quase vazio. No estacionamento, o ar da noite estava mais frio do que o esperado. Laura diminuiu o passo a poucos metros de onde estava o seu carro.
— O que foi? — perguntou Rafael percebendo a hesitação.
Ela parou de vez. O salto fez um som seco no concreto.
— Em uma situação hipotética, você ficaria comigo?
Rafael sustentou o olhar dela por alguns segundos. O silêncio demorou o bastante para doer.
— Em uma situação hipotética… — repetiu, como se precisasse organizar a própria cabeça. — Eu diria que não é uma boa ideia.
Laura não desviou.
— Isso não foi o que eu perguntei.
Ele passou a mão pela nuca, respirou fundo.
— A gente trabalha junto. Segunda-feira existe. Reuniões existem. Gente que presta atenção demais existe.
— Eu sei onde a gente trabalha — ela respondeu, firme. — Ainda assim.
Ele deu um meio passo para trás, como se precisasse de espaço para pensar. Não foi longe.
— Você não facilita.
— Não estou tentando facilitar.
Outro silêncio. O ar frio parecia mais presente do que antes.
— Em um cenário hipotético — ele disse, mais baixo — eu pensaria muito antes de estragar o que a gente construiu.
— E se não estragasse? — ela rebateu. — Se fosse só… a verdade?
O maxilar dele tensionou. A distância entre os dois já era mínima outra vez.
— Laura…
Ela deu um passo à frente.
— A certeza é agora.
Por um instante, ele ainda hesitou. Depois a mão dele encontrou a cintura dela, firme, como se finalmente tivesse tomado uma decisão. Puxou-a para perto, acabando com o espaço que restava.
O beijo começou contido, como se ainda houvesse uma porta de vidro entre os dois. Depois, as mãos subiram pelas costas, encontraram pele sob o tecido. A respiração perdeu o ritmo.
Laura foi a primeira a se afastar.
— Meu carro.
Eles caminharam rápido, mas sem correr — ainda havia um resto de decoro, um fiapo de “e se alguém nos vir?”. Ela destravou o SUV com o chaveiro e entrou pelo lado do motorista, jogando o casaco de qualquer jeito no banco de trás antes de puxá-lo para o banco do passageiro. Assim que a porta bateu, o silêncio do carro foi preenchido apenas pela respiração pesada dos dois. Ela subiu no colo dele com uma naturalidade que denunciava que já tinha imaginado isso mil vezes. A saia subiu pelas coxas enquanto as mãos dele foram direto para a pele quente, subindo devagar, respeitoso mas faminto.
— Você sabe que isso pode acabar com tudo — ela sussurrou enquanto abria os botões da camisa dele, um a um, com dedos que tremiam levemente.
— Eu sei que você pode acabar comigo de jeitos que eu nunca vou esquecer — ele respondeu, a voz grave, os dedos já encontrando a renda da calcinha por baixo da saia. Ele não perdeu tempo tentando tirá-la, apenas a afastou para o lado com firmeza, sentindo a umidade e o calor que ela tentava esconder sob o corte impecável da roupa social.
Ela riu baixo, um som curto e perigoso, antes de puxar o rosto dele para outro beijo. Dessa vez mais lento, mais exploratório, como se agora que o primeiro muro tinha caído, eles pudessem finalmente saborear a queda.
As mãos dela desceram até o cinto dele. Abriram com calma deliberada, quase provocadora.
— Levanta um pouco — ordenou, o tom de chefe voltando por instinto.
Ele obedeceu sem hesitar. Com a saia já amontoada na cintura dela, ele a sentiu guiar o caminho, unindo os corpos com um movimento lento e deliberado. Era a primeira vez que obedecia uma ordem dela fora do contexto profissional e, paradoxalmente, era a ordem mais fácil de cumprir em toda a vida.
Quando ela finalmente o envolveu com a mão, os dois soltaram o ar ao mesmo tempo. Ela o guiou para dentro dela com um movimento lento, deliberado, sentindo cada centímetro, os olhos fixos nos dele.
O espaço do carro era apertado, desconfortável, ridículo para o que estavam fazendo. E exatamente por isso era perfeito.
Ela se movia em cima dele com uma cadência que misturava controle e entrega — como se estivesse ditando o ritmo de uma apresentação, mas dessa vez era o corpo dele que respondia aos comandos. Ele segurava os quadris dela com firmeza, ajudando nos movimentos, mas deixando que ela decidisse a velocidade, a profundidade, o momento exato em que queria ir mais rápido.
— Mais forte — ela pediu, a voz entrecortada, os olhos semicerrados.
Ele obedeceu. Sempre obedecia bem quando ela pedia com aquele tom.
O vidro começou a embaçar. O cheiro de sexo misturava-se ao perfume dela, ao cheiro de couro do banco, ao leve aroma de vinho que ainda pairava nas roupas. Quando ela gozou, foi com um gemido abafado contra o pescoço dele, os dentes cravados na pele para não gritar. Ele a seguiu segundos depois, o corpo inteiro tensionando enquanto se derramava dentro dela.
Por alguns instantes ficaram assim: ela ainda montada nele, a respiração dos dois sincronizada, o silêncio voltando a reinar, mas agora um silêncio satisfeito, cúmplice.
Ela foi a primeira a se mexer. Desceu do colo dele com cuidado, ajeitou a saia, passou os dedos pelos cabelos bagunçados como se estivesse se recompondo para uma reunião de diretoria.
— Isso nunca aconteceu — disse ela, olhando para o retrovisor enquanto passava os dedos nos lábios inchados.
Ele riu baixo, abotoando a camisa.
— Claro que não, chefe.
Ela virou o rosto para ele, os olhos ainda brilhando com o resquício do prazer.
— Segunda-feira, oito e meia. Não se atrase.
— Nunca me atraso para você.
O silêncio dentro do carro já não era tenso. Era outro tipo de silêncio — mais denso, mais consciente.
Laura ajeitou o banco devagar, como se reorganizasse também os próprios pensamentos. Rafael passou a mão pelo rosto, soltando o ar numa tentativa discreta de voltar ao eixo.
— A gente precisa ir — ela disse, sem olhar para ele.
Ele assentiu.
Quando o motor ligou, nenhum dos dois comentou nada. Ela dirigiu até a saída do estacionamento em silêncio, os dedos firmes no volante outra vez — agora não por nervosismo, mas por contenção.
Parou perto do carro dele.
Rafael abriu a porta, mas hesitou antes de sair.
— Segunda-feira existe — ele disse, quase como um lembrete.
— Eu sei.
Ele sustentou o olhar dela por um instante longo demais para ser casual. Depois saiu, fechando a porta com cuidado.
Laura esperou até que ele alcançasse o próprio carro. Só então engatou a marcha e saiu.
Naquela noite, nenhum dos dois foi direto para casa.


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