O ex com autorização
Hoje fui às compras. Centro Comercial Vasco da Gama, aí vou eu! Hora de almoço um bocadinho maior, e lá embarco na linha vermelha do metropolitano. Apesar de ficar um pouco fora de mão, gosto de ir lá de vez em quando. Gosto do ambiente, gosto do rio ali ao lado… O objetivo era comprar uma lingerie para surpreender o marido. Nada como uma peça sensual para aquecer uma noite fria.
Cheguei perto do meio-dia e meio. Sentei-me a almoçar na zona comum dos restaurantes, tentando despachar-me, quando ouço atrás de mim:
– Olá! Estás boa?
Virei a cabeça e olhei para cima. Nem queria acreditar! Ali, à minha frente, estava o Pedro, ex-namorado de há muitos anos! Levantei-me e abracei-o.
– Há quanto tempo! – disse-lhe enquanto sentia as mãos dele envolverem-me a cintura.
Dois beijos depois, afastámo-nos. Ele mirou-me.
– Estás muito gira!
Dei-lhe uma suave palmada no rosto.
– Galanteador! Há coisas que nunca mudam!
– Não não! Estás no ponto!
Sentámo-nos. Já não via o Pedro há cerca de quinze anos. Tínhamos namorado durante três anos, um namoro intenso, que acabou quando, por motivos profissionais, nos tínhamos afastado. Eu entretanto casei, ele contou-me também que casou mas a coisa não correu bem e apenas durou dois anos. Agora estava por Lisboa por uma semana.
Foi muito bom partilhar memórias desse tempo, recordações que tinham ficado armazenadas numa qualquer gaveta da minha mente, cheia de pó que foi sendo depositado pelos anos que passaram. Em alguns momentos ficámos a olhar-nos em silêncio, cada um refazendo as suas ligações para esse passado em comum. E o almoço prolongou-se até à hora em que eu tinha de voltar para o trabalho. Ele acompanhou-me até ao Metro e, no último minuto, decidiu ir comigo. Gostei do gesto, eram mais uns minutos para pôr a conversa em dia. Deixou-me à porta do emprego e despedimo-nos com dois beijos e um abraço. Olhou-me e fez aquele sorriso galante que sempre o caracterizara:
– Não sei se estás mais bonita agora ou quando namorávamos!…
Deitei-lhe a língua de fora e dei uma gargalhada.
– És incorrigível!
– Se não fosses uma mulher casada convidava-te para jantares comigo.
– Imagino que sim! Mas olha, lá por causa disso não há problemas. Convido-te eu para ires jantar lá a casa um dia desta semana, que dizes?
– Seria agradável!
Acabámos a trocar números de telemóvel. É engraçado! Soube bem recordar aquele tempo em que mergulhei de cabeça na relação mais prolongada que tive – sem contar com o meu casamento!
No dia seguinte, de manhãzinha, o Pedro telefonou-me convidando-me para almoçar. Aceitei e lá me encontrei de novo com ele. Foi mais um momento de recordação de velhas e agradáveis memórias! A determinada altura ele olhou-me fixamente, de tal forma que eu fiquei até sem saber como reagir.
– Sabes que, desde que nos reencontrámos, me tenho lembrado de muitos momentos bem excitantes que vivemos os dois juntos?
Olhei-o em silêncio. Ele sorria enquanto mantinha o seu olhar fixo no meu.
– Estás muito bonita! Tenho saudades de ti…
– Não me digas que te voltaste a apaixonar por mim? – respondi-lhe com uma gargalhada. – Olha que eu agora sou uma mulher casada!
– Não, não! Não me voltei a apaixonar por ti, mas ao fim destes anos todos estás muito apetecível e confesso-te que tenho pensado em como seria estar contigo!
– Ah sim? E esses pensamentos levaram-te a alguma conclusão?
– Levaram! Levaram-me à conclusão de que seria algo muito bom!
– Mas isso é uma proposta?
A conversa resvalava para aqueles terrenos movediços de que gosto. A minha costela provocadora começava a tomar conta da situação.
– Bom… uma proposta… não sei… – ele entrava naquela fase de ficar pouco à vontade.
– Sim… estás a propor a uma mulher casada que vá para a cama contigo, traindo o marido?
Agora era eu que lhe fixava o olhar, mas ele desviou os olhos.
– Tens razão, desculpa lá estes devaneios. Estou a ser parvo e a estragar este nosso reencontro. Esquece!
Naquele momento o Pedro procurou outros temas de conversa, tentando desviar o assunto. Mas agora eu estava no meu território…
– Sabes que eu só poderia aceitar a tua proposta se tu falasses com o meu marido antes e lhe pedisses autorização!
Uma frase destas dita durante uma garfada pode ter consequências complicadas. Ele tossiu meio engasgado.
– Desculpa? Não percebi!
– Então… se me estás a fazer uma proposta de eu ir para a cama contigo e eu sou uma mulher casada, só poderei considerar essa proposta se tu pedires autorização primeiro ao meu marido! Imagina que ele autoriza!…
Os homens são facilmente manipuláveis, e o Pedro acabava de passar para uma posição totalmente controlada por mim. Estava sem saber como responder, aliás acho que nem percebia se eu estava a gozar com ele ou a falar a sério.
– Sabes que eu também me lembro de muitos momentos bem quentes que passámos! E a ideia de saborear de novo alguns deles não me desagrada. Mas nunca iria trair o marido, por isso teríamos de ver primeiro qual a opinião dele!
A cara dele mostrava que não estava a perceber muito bem o que se estava a passar. Deixei-o assimilar tudo aquilo e esperei uns segundos.
-Estás a gozar comigo, certo? Estás claramente a gozar comigo! Ok, eu mereço. Um tipo que faz uma proposta destas merece levar nas orelhas!
Recostei-me na cadeira. Tínhamos acabado de almoçar.
– Não quero sobremesa, só café!…
Esperei que ele pedisse dois cafés.
– Não estou a brincar contigo! A ideia de irmos para a cama agrada-me. Mas só o farei com o consentimento do marido!
Ele estava cada vez mais baralhado.
– Mas tu estás-me a dizer que queres que eu vá ter com o teu marido e lhe peça para ir para a cama contigo?
– Boa! Finalmente percebeste…
– Isto é de doidos! Achas que eu vou chegar ao pé dele e dizer-lhe: Olha, quero que me autorizes a comer a tua mulher, pode ser?
– Posso convidar-te para jantar lá em casa. Aliás, depois deste almoço, estou a dever-te um jantar! E pode ser um tema de conversa interessante!
Pisquei-lhe o olho. Tinha-o deixado completamente confuso.
– Acho que estás mesmo a gozar comigo! Definitivamente! E eu estou a cair que nem um patinho!
– Achas? Inclinei-me para a frente e coloquei a minha mão sobre a dele, no tampo da mesa. – E se eu te disser que também me apetece ir para a cama contigo? Que gostava de te sentir de novo, de te saborear, que gostava que me fizesses aquelas coisas que me deixavam a respirar de forma ofegante?
– Isso é injusto, estás a deixar-me excitado e depois nada disto se vai concretizar.
– Ah não? Porquê? Tu queres… eu quero… basta apenas que dês o último passo!
– Mas tu és doida? Tu queres mesmo que eu fale com o teu marido? Ele põe-me na rua depois desse jantar, ou mesmo a meio do jantar!
– Será?…
Voltei a recostar-me na cadeira.
– Quem sabe não tinhas uma surpresa!
Fiz sinal ao empregado para trazer a conta.
– Acompanhas-me ao metro?
– Não, levo-te de carro!- ofereceu-se ele.
– Que bom! Vamos.
Fizemos a viagem, curta, apenas de poucos minutos, em silêncio. Quando ele parou à porta do meu emprego, disse-me:
– Confessa que estiveste a gozar comigo este tempo todo!
Inclinei-me sobre ele e beijei-o nos lábios. A minha mão acariciou-lhe levemente a coxa.
– Achas?… Espero que me telefones a confirmar se queres ir jantar lá a casa.
Dei-lhe mais um beijo nos lábios e saí do carro. Uma tarde de trabalho estava à minha espera.
Fiz uma aposta comigo mesma acreditando que o Pedro me diria, nas próximas horas, que aceitava o meu convite para jantar. E três horas depois lá recebi o sms que me mostrava como estava certa. Nessa noite contei ao Jorge o que tinha acontecido. Ele ia-me referindo que eu tinha sido terrível e que tinha deixado o pobre homem num estado lastimável. Quando lhe mandei uma mensagem, dizendo-lhe que esperava por ele para jantar no dia seguinte, senti um tremor delicioso que me percorreu o corpo. Curiosamente, o marido pediu-me para não ser excessivamente mazinha com ele! Já viram isto? A solidariedade masculina em todo o seu esplendor! Mas enfim, prometi-lhe que me ia portar bem, afinal de contas o Pedro já deveria vir suficientemente nervoso para que eu precisasse de o espicaçar ainda mais.
O Pedro e o meu marido não se conheciam pessoalmente. Como tal, quando no dia seguinte a campainha da porta tocou e fomos abrir, já eu estava danadinha para ver como seria o primeiro embate! Ele trazia uma garrafa de vinho alentejano (bom gosto…) e cumprimentou-me com dois beijos. Virei-me para o marido e apresentei-o:
– É o Pedro, o meu ex!
Foi mais forte que eu! Reconheci de imediato que poderia tê-lo apresentado como um velho amigo, mas há coisas que controlo dificilmente, e estava danadinha por pôr alguma lenha na fogueira…
O Pedro sorriu, meio encabulado. Seguiu-se o tradicional aperto de mão entre cavalheiros e lá se iniciou o jogo da noite! Fomos até à sala e sentámo-nos. Conversas de circunstâncias, o tempo frio, a crise, o desemprego, tudo assuntos interessantíssimos! Acabei por deixá-los os dois a pôr a mesa enquanto fui para a cozinha ultimar o jantar.
Preparado o repasto lá nos sentámos para comer. Havia todo um clima de tensão quase tão percetível quanto o vapor fumegante da comida acabada de sair do forno! Claro que estava nas minhas mãos desbloquear a situação e dar um empurrãozinho.
– Sabes… – disse virando-me para o marido – quando eu tive a relação com o Pedro ele tinha uma fantasia que gostava imenso de pôr em prática comigo!
Percebi de imediato que tinha de ter mais cuidado, pois o meu comentário quase provocou um acidente com o Pedro a engasgar-se. Ele bebeu um pouco de vinho e olhou-me ainda meio sufocado (ou então o ar aflito tinha a ver com a expectativa do que eu iria dizer).
– Ah sim? – perguntou o Jorge.
– Tinha! Uma das coisas que ele mais gostava era de me vendar e de me despir comigo assim de olhos tapados. Dizia que desta forma as sensações que eu iria sentir ficavam mais potenciadas! Lembras-te Pedro?
Já alguma vez tiveram a sensação de olhar para alguém que acabou de congelar? Pois o rosto dele parecia ter saído da gaveta de baixo da arca frigorífica, imóvel e sem qualquer sinal de reação. Pareceu-me até que ele tinha deixado de respirar, o que percebi ser manifestamente exagerado!
Engoliu em seco e fez um sorriso tão amarelo que mais parecia um esgar provocado por uma dor intensa que lhe tivesse atingido uma qualquer parte do corpo.
– Lembras-te? – insisti – Fazíamos umas sessões em que eu ficava de olhos tapados, tu ias-me despindo lentamente e ias-me beijando o corpo todo, até que eu ficava nua e depois as tuas mãos acariciavam-me de forma demorada. Era muito bom!
O marido percebeu que teria de fazer qualquer coisa para evitar que o Pedro caísse para o lado.
– Tens bom gosto Pedro! Desfrutar assim de momentos desses é muito agradável. E a Ana gosta muito que a acariciem… Mas isso tu sabes pois vocês tiveram uma relação bem intensa durante algum tempo, não foi?
O Pedro ia processando a informação. Lá conseguiu dizer, com uma voz meio sumida.
– Sim, tivemos uma relação muito boa.
– A Ana contou-me! Aliás, ela ficou muito contente de te reencontrar ao fim destes anos todos.
– Pois foi! – concordei. – Foi muito bom rever um dos homens que me marcou! Aliás, no almoço que tivemos, recordámos muitas situações engraçadas não foi?
– Sim sim! – anuiu o Pedro num tom de voz meio sumido.
– O Pedro até me disse que tinha um pedido para te fazer! – disse piscando-lhe o olho.
O marido fez um ar curioso à espera do que se iria seguir. Os dados estavam lançados, era agora ou nunca. O Pedro percebeu que não havia volta a dar. E terá percebido que tudo aquilo só estava a acontecer porque eu teria a certeza de que o marido não reagiria agarrando na faca e espetando-a no peito do tipo capaz de fazer uma proposta tão indecente. Por baixo da mesa o meu pé movimentou-se em direção à perna dele e tocou-lhe, incentivando-o.
– Bom, de facto a situação é um bocado estranha. Quando reencontrei a Ana acabei por me recordar de muitas coisas bastante agradáveis que vivemos. A verdade é que a vontade de voltar a experimentar algumas dessas coisas passou-me pela cabeça e acabei por lhe dizer isso mesmo…
Olhou para mim e eu sorri de forma encorajadora.
– Na 5ª feira… bom, na 5ª feira eu acabei mesmo por dizer isso à Ana…
Contive-me para não me rir… a coisa parecia ter engasgado por ali e o Pedro movimentava-se em círculos. O marido mantinha-se impávido e sereno, o que também não ajudava nada.
– A Ana disse-me que… bom… referiu que a ideia de estarmos os dois juntos também lhe agradava!
– Ah sim? – perguntou o marido olhando para mim.
– Pois… mas ela disse-me que só com o consentimento do marido aceitaria que isso acontecesse, por isso…
– Sim?… – questionou o Jorge. Mas o Pedro parecia não ter coragem de levar esta epopeia até ao fim. O Jorge percebeu e deu um empurrãozinho.
– Se percebo, o que estás a querer perguntar-me é se eu não me importo que vás para a cama com a minha mulher!
Pumba! Murro em cheio no estômago! O Pedro remexeu-se na cadeira mostrando um elevado grau de desconforto. Era o momento crítico! E agora? Imagino que ele estava a preparar-se para uma qualquer agressão ou insulto do marido indignado.
– Por mim tudo bem… afinal é o reencontro de duas pessoas que já foram para a cama várias vezes, não é?
O Pedro alternava o olhar entre o meu rosto e o rosto do marido. Aquilo deveria parecer-lhe um filme nonsense! Bebeu mais um pouco de vinho.
– Não te importas?
– Claro que não!…
O rosto de Pedro abriu-se num sorriso. Acho que de repente se sentia 200 quilos mais leve!
– Mas… com uma condição! – referiu o marido, recostando-se na cadeira.
– Condição? – inquietou-se o Pedro.
– Sim!
Após um silêncio de alguns segundos, o marido disse de forma pausada:
– Eu quero estar presente!
Pedro olhou-me sem saber o que responder. Era visível que esperava uma reação minha.
– Parece-me um pedido aceitável! – disse-lhe.
– Queres estar a ver-me com ela? – questionou Pedro.
– Sim!
Levantei-me e dirigi-me ao nosso convidado. Debrucei-me sobre o seu rosto e beijei-o nos lábios, apanhando-o de surpresa. Ele não reagiu, talvez porque ainda não tinha assimilado a situação de estar a ser beijado por uma mulher casada enquanto o marido dela observava.
Beijei-o de novo, e a minha língua invadiu a sua boca. Quando me afastei ele tentou ganhar fôlego. Percebi que lhe devia dar algum tempo para ele processar tudo o que estava a acontecer.
– Podes ficar aí sentado que eu e o Jorge levantamos a mesa!
Levámos a louça para a cozinha. O marido agarrou-me e empurrou-me contra a bancada. Beijámo-nos de forma sôfrega e as suas mãos apertaram-me as nádegas. A coisa começou a esquentar, mas lá nos acalmámos…
Deixámos que ele tivesse alguns minutos a sós. Quando regressámos à sala, o marido foi direto ao assunto:
– Proposta aceite?
Aproximei-me dele e sentei-me no seu colo, assim tipo cavaleira. Ele manteve-se em silêncio e a minha mão mergulhou entre as suas pernas.
– Eu conheço-te! Sei como te excita poderes participar neste jogo. Excita-te não te excita?
A minha mão apertou-lhe o sexo. Estava duro… Mordi-lhe o lóbulo da orelha e sussurrei-lhe.
– Então? Queres ir para a cama comigo?
Ele engoliu em seco…
– Sim…
Estava sentada nas suas coxas, virada para ele, as minhas pernas abertas, como uma amazona que monta o seu puro-sangue de estimação. Agarrei-lhe as mãos e pousei-as sobre os meus seios.
– Toca-me… – pedi-lhe.


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